terça-feira, 14 de setembro de 2010

Clichê

Você pode achar ridículo o que irei contar agora.

Mas eu não.

Posso parecer sarcástico e estar curtindo uma com sua cara.

Mas não, eu definitivamente não acho isso.

O que eu quero falar até pode parecer fictício e soar como qualquer outra historinha cheia de clichês.

Mas não! Essa não! Não a minha história, afinal ela é real.

Foi assim:

Uma noite qualquer eu sai de casa para comprar um maço de cigarros e nunca mais voltei.

Foi isso.

Só isso.

Tudo bem... É claro que não foi só isso, mas sim uma série de eventos que me fizeram abandonar meu lar, a minha família. Definitivamente não foi uma decisão fácil sair e seguir sem rumo até chegar aqui, onde encontrei essa máquina de escrever velha, e com ela, posso finalmente desabafar no papel contando minha história pra você.

Sabe, aos mais críticos e detalhistas tudo pode parecer nitidamente desarrumado, fora de lugar...

Mas não é...

Você pode achar tudo estranho, até mesmo hilário.

Mas não é...

Para mim, o que vou contar é trágico.

Doloroso.

Penoso.

Difícil.


Por favor, não se preocupe, já me acostumei. Para mim as coisas sempre são mais difíceus... Maldita tendinite! Me fez trocar a letra “i” por “u”... Mas agora está explicado o motivp do erro... Merda! Errei de novo! Calma, eu não vou ficar digitando errado só por causa da dor de uma maldita tendinite. Tenho apenas quatro folhas. Vou respirar fundo, estralar o pulso e alongar o antebraço antes de continuar...

Pois bem, lá vai:

Eu tinha 26 anos quando casei com uma linda loira de dezenove. Todos me criticaram quando anunciei que iríamos casar, achavam muito cedo, pois fazia apenas duas semanas que eu a havia conhecido...

Como são as paixões... Elas te fazem pensar com a cabeça errada. Não dei ouvidos a ninguém. Casei sem pensar. Seis meses depois nasceu uma criança loira de olhos azuis. Não só eu, como todos fizeram a mesma pergunta, durante muito tempo. Como posso tê-la engravidado e o bebe, nascido de uma gestação de apenas 6 meses, ser loirinho, de olhos azuis e pesar 4 kg?

Nunca obtive uma resposta. Pelo menos nenhuma que não magoasse ou dilacerasse minha auto-estima. “Crianças prematuras não pesam 4kg!”, foi isso que minha mãe gritou no corredor da sala de parto. “Aquela loira de farmácia te aplicou um golpe” falava minha irmã, fula da vida enquanto as enfermeiras ajeitavam o bebe na incubadora. Fui ridicularizado por meus amigos e familiares e isso doía, mas eu a amava e era apenas um jovem pensando já ser um homem feito. Logo suportei toda aquela barra.

Preste atenção, eu quero te contar tudo nos mínimos detalhes, e sei que você deve estar se perguntando por que eu estaria tão encanado por ter um filho loiro e de olhos azuis... Sabe, geralmente os casais sonham com isso. Os bebês dos comerciais, como eles são? Loiros e de olhos azuis! Os bebês-modelo que estampam pacotes de fraldas são... Loiros e de olhos azuis! Os filhos de famosos, são como? Loirinhos e de olhos azuis, claros e límpidos como uma piscina olímpica. Mesmo com toda mídia decretando o que é belo, eu realmente nunca imaginei ter um filho loiro e de olhos azuis. Não é por desejar algo diferente, nem é questão de não me deixar influenciar nem nada. Mas então por quê? Qual o problema em ter um filho loiro e com olhos azuis? Aposto que você gostaria de me perguntar isso! Mas sei lá como falar sobre esse assunto... São tantas formas de responder... Veja bem... Não quero soar preconceituoso ou coisa parecida, mas acredite, se você fosse negro e neto de nigerianos como eu, também não gostaria de ter um filho loiro e com os olhos azuis...

Antes de sair de casa, minha rotina era meio chata, basicamente trabalhava durante o dia e estudava na merda de uma escola estadual à noite, para assim que chegasse em casa, podre de cansado, apenas assistisse minha esposa me jogar nos braços aquela criança loira e logo sair correndo para seu trabalho. Ela trabalhava em uma casa noturna, era stripper... Não quero ser mais específico que isso. Bem você já sabe... Mas pelo menos isso nos garantia uma boa grana, e apesar das brincadeiras de amigos e parentes, eu preferia não questioná-la sobre o seu serviço. Enquanto ela trabalhava, eu deixava o bastardo livre para brincar pela casa, e tinha boas noites de sono. Ótimas noites de sono. Dono de um sono profundo, eu dormia realmente bem.

Agora você deve estar se perguntando, como um homem casa com uma mulher que teve um filho que com certeza não é dele, permite que ela trabalhe fazendo sabe-se lá o que noite afora, e aceita isso na maior paz e tranqüilidade. Também sempre me faço essa pergunta, mas ela possui uma resposta tão idiota que chega a ser ingênua... Sabe quando você responde uma pergunta com outra pergunta? Bem, a minha resposta é mais ou menos essa:
- Se você pudesse escolher entre uma Ferrari ou um Fusca, mas com a ressalva de que a Ferrari não poderia ser totalmente sua, enquanto o Fusca seria somente seu, mesmo assim - com essa ressalva canalha - você tem certeza de que não preferiria dirigir uma Ferrari?

O que os olhos não vêem o coração não sente, já diziam...

Era domingo de manhã cedo, quando um senhor vestido de paletó, correntes de ouro e dono de inconfundíveis e familiares olhos azuis bateu lá em casa. Tinha um jeito de bicheiro... Disse ter ido buscar seu filho. Eu estava sonolento e não entendi muito bem o que ele disse. Normalmente pediria para minha esposa atendê-lo, mas não a via desde sexta à noite, quando saiu para trabalhar. Retruquei que ele havia se enganado de casa. Isso foi quando avistei uma BMW prata com minha esposa no banco do carona e entendi tudo... Aquele alemão desgraçado e rico era o pai do bastardo de olhos azuis e dono do puteiro que a vagabunda da minha esposa trabalhava! Só podia ser! Foi aí que eu cheguei ao meu extremo. Já suportara gozações demais de amigos e parentes. Piadas de colegas de trabalho, risadas de vizinhos. Imagine um milhão de agulhas perfurando seu coração... Consegue imaginar? Eu já achava minha vida uma merda, mas descobrir que era corno antes mesmo de meu casamento ter começado... Ah amigo, isso me deixou puto da vida! Furioso, eu desci a porrada naquele alemão cretino e um de seus capangas, que sabe-se lá de onde surgiu, atirou no meu joelho esquerdo duas vezes antes de fugirem. Dor do caralho! Apaguei. Resultado: 3 semanas internado, onde devido a uma infecção hospitalar adquiri gangrena e acabei tendo a perna direita amputada.

Peraí. Você deve estar pensando: “Mas antes ele disse que levou dois tiros na perna esquerda, agora diz que teve infecção na perna direita...”. Sim, foi na perna esquerda mesmo, mas a infecção, por mais incrível que pareça, se deu na perna direita, ou seja, fiquei aleijado de uma perna e sem a outra. Em pouquíssimo tempo a cadeira de rodas se tornou minha melhor amiga...

Quando recebi alta do hospital e voltei pra casa, encontrei minha esposa e o bastardinho na mesa tomando café. Havia pão caseiro e ela ensinava o moleque a cortar fatias do pão. Quando me viu entrar pela porta, ela se levantou, me beijou e disse que me amava, como se nada houvesse acontecido. Nem mesmo mencionou algo ou demonstrou algum tipo de pena em relação ao meu estado deplorável. Ela estava linda com os cabelos castanhos e cacheados. Estranho, pensei. Quando dei por mim, já estava de pé, não estava mais em uma cadeira de rodas e tinha minhas duas pernas inteirinhas de volta. Caminhava normalmente. Será que aquilo era real? Será que tudo não passou de um pesadelo? Uma alucinação? E se eu tivesse um distúrbio psicológico que me fez imaginar toda aquela situação de um filho bastardo, uma esposa puta, tiros e pernas amputadas?!? E se nada daquilo realmente tivesse acontecido?!? Não sei... Mas o fato é que atormentado pelas descobertas que havia feito naquele domingo pela manhã, assassinei brutalmente minha esposa e seu filho com uma faca de pão.

Corta.

Você já deve pensar que três semanas no hospital matutando informações que estragam uma vida me enlouqueceram... Eu apenas pensava:
- Sua puta! Por que fez isso comigo? - Eu não cheguei nem a perguntar realmente, apenas pensava enquanto a esfaqueava friamente.

Pausa.

Você deve me achar um monstro agora. Eu também me acho um monstro. Um assassino covarde que matou a esposa e o filho bastardo e limpou todas as evidências com um pano de chão embebido em acetona. Acredite, agonia é o que eu senti. Agonia seguida de um leve enjôo, devido ao cheiro forte. De repente um cutuco.

ÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃÃHHHHHHHHHHHÑÑÑÑÑÑÑÑÑÑÑÑÑÑ!!!

- Amor, você não vem jantar? – Minha esposa me acordou, 21:42 marcava o rádio relógio. Estranhei o fato de ela estar com o cabelo liso e negro, mas eu estava exausto, parecia carregar os estigmas de uma vida inteira. Uma vida com todos seus altos e baixos, suas frustrações pertinentes. Todas tristezas, culpas, razões e possibilidades. Todos os traumas, fobias e medos que teria se minha vida fosse diferente do que ela é.

Sei que prometi te contar uma história real, mas você tem que entender que para mim isso não é ficção. Tudo foi tão real... Vívido. Passei por tanta coisa naqueles momentos que já não sei mais o que ou quem irei enxergar no espelho. Será que eu sou quem eu penso ser?!? Será que você é quem pensa ser? Mas tudo é tão real... Aquilo não pode ter sido imaginação. Minha vida seria um sonho? Sua vida seria um sonho? Ou melhor, um pesadelo? Eu decidi jamais descobrir a resposta...

Após alguns minutos refletindo, enquanto descia as escadas vi minha esposa e meu filho arrumando a mesa para o jantar. Observei aquela linda ruiva com aquele garoto mulato ao lado e decidi desaparecer de suas vidas antes de torná-las um pesadelo. Senti que já não sabia mais se aquilo que vivia era real... Dúvidas... Com os olhos marejados eu apenas os encarei enquanto me aproximava da porta. Minha esposa me perguntou onde eu estava indo. Eu não respondi. Cada passo dado era mais pesado que o anterior. Mais difícil. Abri a porta. O garoto, sentado à mesa, estava com a faca na mão e me pediu para que lhe cortasse uma fatia de pão. Seu olhar me despertou lembranças tenebrosas. Eu não reagi. Senti cheiro de acetona. Lembrei de ter assassinado minha família. Fiquei pálido, parecia ter levado um soco na boca do estômago. Ele me pediu mais duas vezes para cortar o pão e me alcançou a faca. Hesitei. Olhei para a faca e senti náuseas. Enjoado eu senti um milhão de agulhas perfurando meu coração... Você consegue imaginar? Então fechei a porta e sai para comprar cigarros...

E eu nem fumo.