sexta-feira, 23 de julho de 2010

Língua de sogra, praga de mãe...

Certa vez a mãe de um amigo meu, uma dedicada entusiasta da arte da fofoca, após o fim de um longo e conturbado relacionamento que tive, passou a espalhar aos quatro cantos que eu havia caído em depressão. Imagina só, uma senhora revendedora de cosméticos e derivados, batendo na porta da sua casa e te saudando assim:

― Menina nem te conto... ― Com aquele pretensioso sorriso amarelado, natural de uma pessoa consumida pela necessidade de contar alguma “novidade”.

― O que mulher, fala logo!

― Tu sabia que o Diego tá em depressão por causa da fulana?

― Jesuízzzzzzimeninah! Mas que Diego? – As dúvidas gravitacionais dignas de sobrancelhas arqueadas pairam sobre a ouvinte.

― O Diego, aquele ali da esquina, amigo do meu guri. Guria... O coitado já perdeu uns 20kg e tá querendo se matar! ― O ápice, a “notícia” sensacionalista TEM de ser propagada.

― É?!?

― É sim, eu não sou fofoqueira pra ficar falando uma coisa dessas sem saber... ― Toda fofoqueira TEM que se auto-intitular uma não-fofoqueira. ― Mas ó chegaram as tuas encomendas. Quer ver? ― A repentina mudança de assunto, instigando a curiosidade da ouvinte.

― Claro, claro. Mas primeiro me conta mais sobre a vida do tal rapaz! ― Pronto. Ouvinte atenta e presa à conversa.

Fofoca assada e saindo do forno, era assim que ela ganhava a atenção das pessoas para continuar a soltar sua língua afiada. Juro que era assim que fazia! E poxa vida, como fazia...

Admito que realmente fiquei abalado com tudo que se sucedeu ao fim daquele namoro - tão comentado pela mãe do meu amigo - mas nada comparado às suas insinuações e apontamentos. Nenhuma demasia que culminasse em me entupir com Prozac e outras drogas de tarja preta. Nada de depressão. Enfim, acontece que essa mãe do meu amigo também era uma sogra. Mais que isso, era uma sogra clássica, exatamente como as que deram fama e adjetivos pejorativos a todas as sogras. Uma verdadeira megera! Meodeos!

Uma noite estava eu, meu amigo e sua namorada conversando e gargalhando sob a luz da lua, quando fomos interrompidos por um acesso de fúria de sua mãe que irrompia de seu Chevette 84 azul metálico, profanando xingamentos medievais e caricatos, com pretensões e lógicas deploráveis. Tudo por quê? Uma desculpa qualquer, que ela pensou justificar sua atitude. Bah! Triste cena.

O fato foi o seguinte: os xingamentos ásperos e mirabolantes que disse miravam um alvo – sua nora. Pobre coitada. Moça quieta, comportada e de família, não chegou nem a revidar. Meu amigo, talvez impressionado pela agressividade dos dizeres de sua querida mamãe, conteve-se e não ousou em seus argumentos. Manteve a calma inerente àqueles que todos os dias convivem com situações que tal. Mas sua paciência não foi o bastante. A discussão não se cessara. Piorava. Eu analisava friamente aquilo, não queria me meter, mas... me meti! Questionei ao meu amigo como ele agüentava aquilo. A broaca ouviu...

― Ela é louca, não adianta dar bola. ― Meu amigo respondeu, ainda em tom de respeito.

― E tu guria, como suporta freqüentar a casa de uma sogra dessas? ― Perguntei a sua namorada.

Esta baixou os olhos e não me respondeu. Olhava para o chão. Fitava-o. Muito provavelmente enxergava entre as falhas do gramado um caminho para sair dali, mas não saía, permanecia imóvel e calada. Chocada, porém acostumada em nome do amor ao namorado.

Sensibilizei-me com a dor daquele casal. Os insultos eram intoleráveis e blasfêmicos. Doentios. Era realmente uma louca, como havia sabiamente concluído seu próprio filho. Uma louca de pedra, acrescento.

Àquela altura eu já estava sabendo da última: ela havia abordado minha ex na rua e lhe dirigido todos os insultos mais sórdidos e impronunciáveis que conhecia, a fim de – pasmem - me defender! Sim, queria passar a história a limpo e criticar a outra lá por termos terminado. Era sobre isso que eu conversava com o casal quando a porta voz oficial da fofoca chegou. Ela uma recém desquitada, ainda amargava o sabor fétido do desprezo – resultado da separação de um bêbado vagabundo com quem dividia o teto. Meu amigo dizia que desde que seu padrasto fora embora, ela não era mais a mesma. Devia ser a dor da rejeição.

Sempre pensei que ele bebia tanto para, somente do alto de sua embriaguez, conseguir aturar ela. Naquela noite tive certeza. Pensei: “ele fez a coisa mais certa da vida dele, deixando ela...”. Mas bem, foco. Ciente de sua desnecessária e intrometida tentativa de defesa, então aterrorizado com as explanações e profanações ditas a sua nora, de repente fui tomado por um espírito de promotor de justiça diante um crime com motivação banal. Consternado teci críticas a respeito de suas atitudes. Putz...

Como pessoas desestabilizadas emocionalmente são donas de comprar encrencas, eis que a maluca muda o alvo de toda sua falácia. Juro que naquele momento percebi uma espécie de laser vermelho no meu peito, igualzinho aos usados por matadores de aluguel nos clássicos filmes B de ação. E ela apertou o gatilho. Nossa! Quanta coisa uma pessoa pode esconder de outra. Quantas opiniões e pensamentos aterradores podem nutrir por alguém. Houve muitos “tiros”. Uma metralhadora de angústia. Ouvi tanta merda...

― O que tu quer se metendo na minha vida? ― Agressiva e estranhamente indagou-me.

― Não estou me metendo na sua deplorável vida... Estou apenas questionando como eles agüentam conviver com você. Logo, estou me metendo na vida deles e não na tua. ― Disse.

Tudo bem... Não falei tão educadamente assim, mas evitando pormenores, foi o que falei.

Meodeos! Era o combustível que ela precisava! Era o necessário para canalizar toda sua fúria contra mim. A mulher soltava fogo pelas ventas. Seus olhos ficaram alaranjados, cor de lava vulcânica, saca? Parecia um vulcão, prestes a devastar, impetuosamente, a planície a seu redor. E continuou a proferir frases estúpidas e horrendas. A ignorava em respeito a meu amigo. Lembro de ter lhe dito que não revidaria por ela ser sua mãe. Não a ofenderia. Mas... Mas algo do que ela falou foi forte, coisa de quem a muito queria dizer aquilo. Ela queria dizer, mas segurava-se para conter as agruras e não deixar tudo jorrar. Algo que me incitou e provocou. Ela realmente queria me atingir com algo forte, algo ofensor. Agressivo como somente alguém com muita raiva teria a indelicadeza de dizer. E proferiu sem dó:

― Seu descornado! Tua mulher te deixou! ― Óhhh... E continuou. ― Aquela vagabunda te largou! ― Com a voz embargada.

Naquele momento me senti amargurado e chutado pela vida, exatamente como ela mesma também fora. Percebi que além da raiva, havia sinceridade em suas palavras. Era realmente o que pensava. Eis aí a sabedoria que só a dor e a experiência trazem. Levantei a mão, dedo em riste, iria lhe dizer coisas que pensava sobre ela – não deixaria aquele showzinho de graça – foi quando ela desabou a chorar... Dó. Foi isso que senti.

― Meu filho me trocou por uma vagabunda. Ela quer me afastar dele. Ele não fala mais comigo. ― E chorava mais e mais.

A pobre coitada atribuía toda a falta de conexão com o filho à nora. Falava todo o tipo de coisas desconexas. Aos prantos, dizia que iria deixar de ser boazinha com as pessoas. E falava com a veemência de como se um dia tivesse sido uma pessoa de boa índole. Gritava que meu amigo não era um bom filho, como seu irmão. Urrava que começaria a fazer o mal, e que naquela mesma semana iria apelar para a magia negra, fazendo um feitiço para acabar com a – segundo ela – vadia que manipulava seu filho.

Bem, nem preciso dizer que o cinismo dominou aquela alma e que, aquela atuação, não seria indicada ao Óscar. Se antes me sentira tocado com a dor e a solidão daquela mulher, naquele momento já sentia nojo de como uma sogra pode ser desprezível com uma nora inocente; pavor de como uma mãe pode ser tão praguenta com um filho sempre presente e solícito. Foi quando me senti novamente no dever de dizer algo. E dessa vez não fraquejei.

― Tu é uma baita cínica mesmo. Falsa! Fofoqueira! Aquele pinguço te larg... ― Nesse instante fui interrompido. De repente meu amigo tomou as rédeas da situação e ainda mantendo o respeito por sua mãe, disse calmamente:

― Meu irmão foi esperto e não um bom filho. Ele tão logo arrumou um rabo de saia, casou para sair de perto de ti, assim como minhas irmãs e meu pai há tantos anos. ― A calma lhe proporcionou esperar o momento certo para dizer algo sem se arrepender.

― Meu pai te largou porque percebeu que estava casado com um demônio! ― Completou.

― Minhas irmãs casaram com os primeiro otários que arrumaram, porque não agüentavam mais tu se metendo na vida delas! ― Sentenciou.

Óhhhh...

- Tu é louca e com louca não se discute. ― Astutamente concluiu, convidando eu e sua namorada a retirarmo-nos daquele ambiente inóspito.

Nos retiramos. Sugeri que fossemos a um pub, tomar um chopp gelado e espumoso para esfriar a cabeça. Foi o que fizemos. Com a cuca fresca meu amigo e sua namorada decidiram entrelaçar-se naquele mesmo mês, classificando finalmente como casamento, um namoro de seis anos. Aos trancos e barrancos juntaram os trapos. Apesar de todas as dificuldades, felizes. Um filho sem as constantes pragas rogadas por sua mãe - a visitava apenas uma vez por mês – e uma nora sem mais ter que aturar os lampejos de insanidade de sua sogra, que então, após ter recebido a verdade nua e crua da boca do próprio filho, passou a tratá-la como deveria e temer cada vez mais acabar abandonada por todos que ama. Aprendeu a ser uma boa mãe. Uma boa sogra. Acabaram-se as fofocas...

Um comentário:

  1. Nossa que história não é mesmo???
    Coragem a sua ter publicado um fato destes,pois se esta mulher é doida ela vai te pegar eim!!!rsrsrs
    To brincando....Mas legal seu texto,parabéns!!! =)

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